Museu do Fado
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Personalidades
 
João Maria dos Anjos
( 1891 - 1956 )
Recusou sempre vincular-se a qualquer compromisso contratual, não abdicando da sua condição de amador. João Maria dos Anjos, de tendência socialista foi "no fundo um lírico, que gostava de cantar o amor e, frequentemente era solicitado para participar em festas populares, embora tenha actuado também em ambientes aristocráticos, como nas casas dos Condes da Guarda, da Ribeira Grande e da Arrochela."(cf. Eduardo Sucena, “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, p.61).

João Maria dos Anjos (homónimo do guitarrista com o mesmo nome), nasceu em Lisboa, no velho bairro de Alcântara, em 21 de Março de 1891.

Começou por tocar viola na «Tuna 11 de Março», que teve a sua sede na Fonte Santa, sítio onde também morava. Andava por volta dos 17 anos de idade. Mas a viola não o fascinou e passou a tocar guitarra e a acompanhar cantadores, o primeiro dos quais foi o José Carapau (José Peres). (cf. Eduardo Sucena, “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, p.61).

Mais tarde formou a sua própria Tuna, que ensaiava numa casa da Rua de S. Joaquim, e por essa mesma altura dedicou-se também a cantar o fado numa taberna da Rua das Cavalariças do Infante (actualmente com outra designação, na zona de Alcântara), onde na última quinta feira de cada mês se reunia um grupo de cultivadores da cantiga para, após terem jantado, davam curso à cantoria. (cf. Eduardo Sucena, “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, p.61).

Manteve-se sempre como cantador-amador. "Não sou profissional. A minha vida, caro amigo, é o emprego onde estou há 40 anos. Comecei por aprendiz de fundição e hoje sou funcionário de secretaria." (cf. “Guitarra da Portugal”, 1 Outubro 1946).

João Maria dos Anjos referia-se aqui à Imprensa Nacional, onde começou a trabalhar muito novo na fundição, depois passou a tipógrafo e, mais tarde, passou a trabalhar na secretaria.

Recusou sempre vincular-se a qualquer compromisso contratual, não abdicando da sua condição de amador. João Maria dos Anjos, de tendência socialista foi "no fundo um lírico, que gostava de cantar o amor e, frequentemente era solicitado para participar em festas populares, embora tenha actuado também em ambientes aristocráticos, como nas casas dos Condes da Guarda, da Ribeira Grande e da Arrochela."(cf. Eduardo Sucena, “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, p.61).

Naquela época era grande o entusiasmo pelos descantes e João Maria dos Anjos, revelando-se um improvisador inspirado, participou em muitos deles, defrontando-se com cantadores como João Junça, José Leitão, José Bacalhau e Joaquim Real, e assim se tornou um dos mais conhecidos e disputados cantadores do fado do seu tempo, "que preferindo o Fado Corrido foi também um apreciado intérprete do Fado Dois Tons e que no retiro do João da Ermida, à Fonte Santa, reunia à sua volta numerosa falange de admiradores."(cf. Eduardo Sucena, “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, p.61)

Recordando alguns momentos emocionantes da sua carreira:

"Há 33 anos, em 1913, no Coliseu dos Recreios, efectuou-se um certame de fados organizado pelo jornal “Canção de Portugal”. Houve prémios para os primeiros classificados e o júri era o próprio público. Além da minha pessoa concorreram os falecidos Vianinha, Reinaldo Varela, Santos Vidreiro e João Mulato. A sala estava cheia. Ganhei o 1º prémio e o Varela o 2º. Confesso que me senti emocionado. Até fui levado em triunfo! Foi uma noite que jamais esquecerei." (cf. “Guitarra da Portugal”, 15 Setembro 1946).

"Uma noite, estando na Calçada da Loiça, na Casa Modesta, do Manuel Sobral, este meu amigo convidou-me, ao fechar a porta, a ir a Benfica, ao velho restaurante Bacalhau. Começámos a cear com regular apetite. Estava presente um casal. Cantei para os amigos que estavam à minha mesa. O casal gostou, deliciou-se e mandou para a nossa mesa cigarros e charutos. E ao retirar-se foi-me entregue um cartão de visita. Era do Secretário da Embaixada do Brasil. E já lá vão tantos anos!" (cf. Guitarra da Portugal, 15 Setembro 1946)

"Criador de um estilo que mais tarde viria a ser adoptado por Carlos Ramos, João Maria dos Anjos, embora incluísse no seu reportório composições alheias, em especial de Avelino de Sousa, cantava sobretudo «obra» sua" (cf. Eduardo Sucena, “Lisboa, o Fado e os Fadistas”, p.61).

Em Julho de 1956 a “A Voz de Portugal” noticiava a morte de João Maria dos Anjos, e na edição seguinte João Maria dos Anjos é alvo de uma evocação: “Com a perda irreparável deste nosso querido e saudoso amigo, que tão alto soube dignificar e prestigiar o verdadeiro fado, perde-se uma das figuras da boémia sadia dos velhos tempos…” (cf. “A Voz de Portugal” 20 Agosto de 1956)

Observações:
Medalha de Ouro de 1º Intérprete do Fado (I Festa do Fado)

João Maria dos Anjos participou na festa do Centenário da Severa, no Salão Luso, em 30 de Novembro de 1946. (cf. Guitarra de Portugal, 15 Janeiro 1947)

Em 06 de Maio de 1948 João Maria dos Anjos foi alvo de uma festa de homenagem no Salão Júlia Mendes, no Parque Mayer.

Selecção de fontes de informação:
“Canção Nacional”, 15 de Janeiro de 1928;
“Guitarra de Portugal”, 27 de Julho de 1930;
“Guitarra de Portugal”, 15 de Setembro de 1946;
“Guitarra de Portugal” de 01 de Outubro de 1946;
“Guitarra de Portugal”, 15 Janeiro 1947;
“ A Voz de Portugal”, 20 de Agosto de 1956;
Sucena, Eduardo (1992), “Lisboa, O Fado e os Fadistas, Lisboa, Vega.

Última actualização: 30 de Abril/ 2008


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