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Severa
( 26 Julho, 1820 - 30 Novembro, 1846 )
Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.

Através do seu registo de baptismo a 12 de Setembro de 1820, na Paróquia dos Anjos, registamos a data de nascimento de Maria Severa Onofriana a 26 de Julho de 1820, o local do seu nascimento terá sido na Rua da Madragoa (actual Rua Vicente Borga nº33), onde sua mãe tinha uma taberna. Filha de Severo Manuel de Sousa, natural da freguesia de S. Nicolau, em Santarém, e de Ana Gertrudes, nascida em Portalegre. O casal havia celebrado matrimónio a 27 de Abril de 1815, na Paróquia de Santa Cruz da Prideira de Santarém.

Severa faleceu muito jovem. O assento de óbito indica a sua morte no dia 30 de Novembro de 1846 na Rua do Capelão, apoplética e sem sacramentos, com a idade de 26 anos e solteira. A fadista foi sepultada no Cemitério do Alto de S. João.

Para além destes dados pouco mais está comprovado sobre a vida da cantadeira, uma vez que a maioria das informações provém dos reduzidos relatos orais de contemporâneos, casos de Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Raimundo António de Bulhão Pato.

O poeta Bulhão Pato, que a conheceu pessoalmente, deixou o seguinte testemunho da sua personalidade: "A pobre rapariga foi uma fadista interessantíssima como nunca a Mouraria tornará a ter!... Não será fácil aparecer outra Severa altiva e impetuosa, tão generosa como pronta a partir a cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada! Valente, cheia de afectos para os que estimava, assim como era rude para com os inimigos. Não era mulher vulgar, pode ter a certeza" (cf. Júlio de Sousa e Costa, "Severa").

Por seu lado, Luís Augusto Palmeirim confessa que viu e falou com Severa apenas uma vez, mas que "foi o bastante para nunca mais me esquecer da esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e sonora, e, apesar destas aparentes seduções, uns modos bruscos e sacudidos, que avisavam os seus interlocutores a porem-se fora do alcance «de um revés de fortuna»".

Tendo-a visitado numa casa onde então morava, no Bairro Alto, descreveu posteriormente, no seu livro "Os excêntricos do meu tempo", esta visita da seguinte forma: "Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes sua congéneres, estava ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo.

Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa, e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela ordem) uma péssima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!"

Miguel Queriol dá nota de uma visita nocturna de um grupo de boémios ao Palácio do Conde de Vimioso, na qual Severa cantou o Fado, acompanhada à guitarra por Roberto Camelo. Em artigo publicado no jornal "O Popular" registou os seguintes comentários: "Se bem me recordo era uma rapariga esbelta, bem apessoada, cabelo escuro e farto, com um ar de desenvoltura sem ultrapassar as conveniências da sua posição para com quem a favorecia, trajando limpa mas modestamente, sem fazer lembrar a desgraça da classe em que menos o vício que a miséria a havia precipitado, e que pela sua timidez se mostrava contrafeita no meio social em que ali se achava."

Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.

Os locais de actuação de Severa não estão ainda identificados, mas acredita-se que estão relacionados com os circuitos de prostituição, em particular do Bairro Alto e da Mouraria.

Severa fez também apresentações em festas aristocráticas, facto tornado possível pela sua ligação ao conde de Vimioso, descrição presente no relato de Miguel Queriol no jornal "O Popular", onde relata a apresentação de Severa no Palácio do Conde.

Eduardo Sucena refere que "um dos locais frequentados pela meretriz cantadeira, onde teria conhecido pessoalmente o Conde de Vimioso, era a taberna da Rosária dos "Óculos", que ficava ao cimo da Rua do Capelão, no prédio conhecido por "casa de pedra". Aí ela cantava e batia o fado, acompanhada à guitarra por Joaquim Lucas, caixeiro de uma outra taberna da Rua dos Cavaleiros".

O mesmo autor indica a taberna do Manuel Jerónimo, o "Cegueta", e a do "Manhoso", situadas na mesma Rua do Capelão, e o Café da Bola, na Rua de S. Vicente à Guia, como locais onde a presença de Severa seria habitual.

A estes locais acrescenta o café do antigo moço de forcado Joaquim Silva, à Rua do Saco, nas proximidades da praça de touros do Campo de Santana, onde o Conde de Vimioso se juntava com apreciadores e praticantes da arte de tourear. (cf. Eduardo Sucena, "Lisboa, o Fado e os Fadistas").

A popularidade de Severa resultou em larga parte da sua relação amorosa com o Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula Portugal e Castro, que lhe proporcionou grande celebridade e naturalmente permitiu a Severa um maior prestígio e número de oportunidades para se exibir para um público de jovens oriundos da elite social e intelectual portuguesa.

Após a sua morte a "meio-soprano dos conservatórios do vício", conforme a apelidou Pinto de Carvalho, passou a usufruir de uma crescente fama, até então inédita nestes círculos populares, cantada em letras de fados, em romance e até no cinema. Essa popularidade está patente no "Fado da Severa", catalogado por Teófilo Braga no "Cancioneiro Popular" de1867, como sendo de autoria de Sousa do Casacão e datado de 1848, de que aqui transcrevemos algumas quadras:

“Chorai fadistas, chorai,
Que uma fadista morreu.
Hoje mesmo faz um ano
Que a Severa faleceu.

Chorai, fadistas, chorai
Que a Severa já morreu:
E fadista como ela
Nunca no mundo apar’ceu.
(...)
Chorai, fadistas, chorai,
Que a Severa se finou.
O gosto que tinha o Fado,
Tudo com ela acabou.”

Prolonga-se até hoje a aura de mistério que torna Severa na figura mais mitológica do universo fadista, fruto da ausência de detalhes sobre a sua vida, bem como da inexistência de um retrato que comprovadamente possa perpetuar a sua figura.

De tal forma esta imagem assumia uma grande importância que o jornal "Canção do Sul" de 1 de Setembro de 1939 apresentava na sua primeira página uma fotografia que afirmava ser o retrato de Severa.

Esta imagem era afinal uma reprodução em postal ilustrado de Acácia Reis (Severa) e Rosa d’ Oliveira (Rosa Engeitada), na revista "Na ponta da Unha", representada no teatro da Rua dos Condes, em 1902, conforme veio desmentido no jornal "Guitarra de Portugal" de dia 10 do mesmo mês de Setembro de 1939.

Em 1901 Júlio Dantas escreve o romance "A Severa", alterando bastantes aspectos do que é possível considerar verdade histórica, transformando o Conde de Vimioso em «Conde de Marialva», atribuindo uma origem cigana a Severa, e construindo um enredo dramático que ao gosto romântico da época se baseia n’ "A Dama das Camélias" de Alexandre Dumas.

Do mesmo autor é a peça que estreia a 25 de Janeiro de 1901, no Teatro D. Amélia (futuro Teatro São Luiz), com Ângela Pinto a protagonizar a cantadeira Severa. De tal forma esta peça se tornou um êxito que foi adaptada a opereta por André Brun, com o mesmo título, em 1909. Neste espectáculo a protagonista foi Júlia Mendes.

Continuando a ser um tema muito popular e aceite com grande sucesso pelo público, sucederam-se as reposições em palco com as mais conceituadas protagonistas. Salientamos a encenação pela companhia de Vasco Morgado, estreada a 8 de Março de 1955, no Teatro Monumental, onde Amália Rodrigues assumiu o papel de Severa.

A obra de Júlio Dantas será ainda adaptada ao cinema pela mão de Leitão de Barros que realiza, em 1931, o primeiro filme sonoro português, também intitulado "A Severa". O filme estreou no São Luiz, num ambiente de acontecimento nacional, a 18 de Junho de 1931 e esteve mais de 6 meses em cartaz, sendo visto por 200 mil espectadores.

Da banda sonora do filme faz parte o "Novo Fado da Severa" (Rua do Capelão) com versos de Júlio Dantas e música de Frederico de Freitas que se popularizou muito para além das telas do cinema.

Apesar da evidente lacuna de dados biográficos pormenorizados sobre o percurso vivencial e artístico de Severa é certo que representa um grupo populacional da Lisboa novecentista a que o Fado está associado, caracterizada pela descrição do fadista à margem da lei, no papel social de "vadio" e "chulo", no caso dos homens, e da prostituição no caso das mulheres.

Na Mouraria, na Rua do Capelão, está o Largo da Severa, onde a casa da fadista está assinalada com a indicação de “Casa da Severa” e no chão, empedrado de calçada à portuguesa, pode ver-se o desenho de uma guitarra. Na fachada da casa foi colocada uma placa, onde pode ler-se: “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana/ considerada na época a expressão sublime do Fado/ Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade/ Lisboa 3-6-89”.

Esta placa foi descerrada, por Amália Rodrigues, ao mesmo tempo que a dedicada a Fernando Maurício.

Fontes documentais:
Registo de Casamento de Manuel Severo e de Ana Gertrudes, Freguesia de Santa Cruz, Concelho de Santarém, 1815;
Registo de Baptismo de Maria Severa Onofriana, Freguesia dos Anjos, concelho de Lisboa, 1820;
Registo de Óbito de Maria Severa Onofriana, Freguesia do Socorro, Concelho de Lisboa, 1846 – Livro de óbitos da Paróquia de Socorro.

Selecção de Bibliografia:
Almeida, Amaro (1945), «De Que Morreu a Severa», in "Olissipo", Ano VIII, N.º 30, pp.100-107, Lisboa;
Carvalho, Pinto de (1903), "História do Fado", Lisboa, Publicações D. Quixote;
Costa, Júlio de Sousa e (1936), "Severa", Lisboa, 1.ª Edição, Bertrand;
Dantas, Júlio (1901)," A Severa: romance original";
Palmeirim, Luís Augusto (1891), "Os Excêntricos do Meu Tempo", Lisboa, M. Gomes;
Pimentel, Alberto (1904), "A Triste Canção do Sul: Subsídios para a História do Fado", Lisboa, Publicações Dom Quixote;
Queriol, Miguel (1901), jornal «O Popular», 7/8-4-1901;
Sucena, Eduardo (1992), "Lisboa, o Fado e os Fadistas", Lisboa, Vega.

Última actualização: Março/2008



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