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Conheça melhor:

Domingos Camarinha

(03 Outubro, 1915 - 17 Maio, 1993)

Domingos Augusto Camarinha, figura marcante da história do fado de Lisboa como intérprete da guitarra portuguesa, nasceu em Lisboa, no bairro da Graça, a 3 de Outubro de 1915.

O seu interesse pela música surgiu por influência do seu pai, que tinha especial interesse pela guitarra e sabia tocar alguns acordes. Com apenas 7 anos, Domingos Camarinha já tocava correctamente o Fado Corrido e, quando aos 10 anos recebeu de presente um cavaquinho pôde desenvolver os dotes que até então já revelara.

Com 11 anos (1926), após a conclusão da instrução primária iniciou-se na arte de barbeiro, uma actividade onde tinha hipótese de convívio com vários fadistas e instrumentistas, aproveitando para aprender e desenvolver com outros a arte da guitarra. Mais tarde, Domingos Camarinha foi trabalhar como empregado de balcão e chegou mesmo a estabelecer-se por conta própria num negócio de molduras, actividade que exerceu até 1962.

Iniciou a sua carreira como guitarrista profissional com 23 anos, fazendo espectáculos soltos, o primeiro dos quais data de 2 de Outubro de 1938 e surgiu pela mão de Salvador Gomes. Logo de seguida, Domingos Camarinha teve ocasião de substituir por uns dias o famoso Armandinho no Retiro da Severa. A partir daí, e sem prejuízo da sua profissão, Domingos Camarinha passou a actuar em todas as casas, cafés e retiros fadistas de Lisboa, começando no Café Mondego, em 1939, e depois passando pelo Solar da Alegria, Café Latino, Café Vera Cruz, Retiro da Severa, Pavilhão Português e Café Luso.

Desde essa época, Domingos Camarinha acompanhou as melhores vozes do fado casos de Ercília Costa, Berta Cardoso, Joaquim Campos, Adelina Ramos, Manuel Cascais, José Porfírio, Maria do Carmo Torres, Alberto Ribeiro, António dos Santos, Márcia Condessa, Amália Rodrigues, Celeste Rodrigues, Júlio Proença, Alfredo Marceneiro, Maria José da Guia, Tristão da Silva, Anita Guerreiro, Lucília do Carmo, Frutuoso França, Fernando Farinha, Manuel Fernandes, Manuel de Almeida, Tony de Matos, Maria da Fé, Fernanda Maria e Fernanda Peres, entre muitos outros.

Marco na carreira do guitarrista foi a sua actuação regular nas emissões do Rádio Club Português, entre 1944 e 1948, num programa de fado e guitarradas, em directo às segundas-feiras. Nestas emissões completavam o elenco de instrumentistas Salvador Gomes e Amadeu Ramin.

Na mesma altura, acompanhado por Santos Moreira, gravou um programa de variações na BBC de Londres e, com Américo Silva gravou a música, da sua autoria, de um programa de propaganda do Vinho do Porto Offley (da Information et Publicité, Place de Valois, Paris), que foi transmitido pelas emissoras Rádio Andorra, Rádio Monte Carlo e Rádio Luxemburgo.

A partir de 1954 até 1966 Domingos Camarinha acompanhou Amália Rodrigues em actuações por toda a Europa, bem como África, Ásia Menor, América do Norte e Brasil. Da colaboração com Amália Rodrigues deve destacar-se que para “além de executante exímio, foi um dos responsáveis pelo repertório da cantora, pois, por um lado transcrevia para guitarra as composições que outros haviam escrito ao piano (Alain Oulman ou Álvaro Duarte Simões) e, por outro, foi autor de vários fados, como “Fado dos Bailaricos” e “Cuidado Coração”, entre outros.” (cf. António Dinis, 2006).

À data da reposição da peça "Severa", levada à cena por Vasco Morgado no Teatro Monumental, em 1955, o guitarrista subiu ao palco acompanhando as interpretações de Amália. Na década de 1950, Domingos Camarinha apareceu também nos ecrãs de cinema. Primeiro integrou o conjunto de guitarras que acompanhou Deolinda Rodrigues no filme "Madragoa" (1952), de Perdigão Queiroga. Mais tarde, participou nas actuações de Amália Rodrigues, no filme "Amantes do Tejo" (1955), de Henri Verneuil, ao lado de Jaime Santos e Santos Moreira, e, também, em "Sangue Toureiro" (1958), de Augusto Fraga e "Fado Corrido" (1958), de Jorge Brum do Canto, onde fez parceria instrumental com Santos Moreira.

Durante o período em que foi guitarrista de Amália convenceu a artista a adoptar, durante algum tempo, o transporte de caravana, devido ao seu imenso pavor por andar de avião, sendo nessa modalidade que se deslocavam pela Europa. No entanto com o aumento de deslocações da fadista por todo o mundo, Domingos Camarinha acabou por ter de desistir de a acompanhar.

Posteriormente o guitarrista tornou-se acompanhador privativo do fadista Fernando Farinha, durante um período de quatro anos. E continuou a exibir-se nas casas de fado de Lisboa, nomeadamente na Adega da Lucília, Severa, Viela e, por último, Lisboa à Noite.

Domingos Camarinha viajou por todo o mundo, trabalhou em países como o Líbano, Israel, Grécia, Venezuela, Cuba, México, Brazil, na cidade de Nova Iorque e por todo o continente europeu e africano. Esteve várias vezes em Paris a convite de casas típicas, como a Le Fado (de Clara de Ovar), onde actuou durante alguns meses de 1961, a Au Portugal, em 1968, ou a La Cour du Miracle (de Helder António), em 1969. Domingos Camarinha fez longas temporadas nesta cidade que chegaram a estender-se por 6 e 9 meses. Destaque-se o sucesso das actuações no restaurante Au Portugal, patente na descrição do jornal “Correio Português”: “a completar o elenco o guitarrista Camarinha e o viola Américo Silva (…) deram mais uma lição de mestres a todo o auditório que vivamente interessado escutava a magia da ressonância das cordas” (cf. “Correio Português”, 2ª quinzena de Outubro, 1968).

O guitarrista foi também activo das causas fadistas, colaborando na formação, a 1 de Junho de 1960, do Grupo Excursionista “Previdentes do Fado”, do qual foi presidente durante alguns anos.

Pedro Caldeira Cabral considera-o um artista “filiado na tradição guitarrística fundada por Armandinho”, mas com “um estilo reconhecidamente individualizado (cf. Pedro Caldeira Cabral, 1998: 246). Facto é que Domingos Camarinha foi um dos expoentes do desenvolvimento interpretativo da guitarra portuguesa, quer no acompanhamento de fado, quer na composição de repertórios a solo.

Domingos Camarinha é autor de 78 fados registados na Sociedade Portuguesa de Autores, entre os quais estão gravados em disco cerca de 30 e, como acompanhador, tem também inúmeros discos gravados, com nomes com Amália Rodrigues, Fernanda Maria, Odete Mendes, Natália dos Anjos, Natalina Bizarro, Beatriz Ferreira, Augusta Ermida, Fernando Farinha, (de quem foi guitarrista privativo) António Mourão, Francisco Martinho e Maria da Fé, entre outros.

Como compositor Domingos Camarinha criou temas de grande popularidade, tais como: "Fado dos Bailaricos" (quadras soltas), "Cuidado Coração" (letra de Leonel Neves), gravados por Amália Rodrigues; "Espaço no Coração", "Fado Carvalheira", "Olhos Felizes" (Fado Alcochete) e "Prédio em Ruínas", com letras de Fernanda Maria e gravados por ela em disco; "Eu Tenho Tanta Saudade" e "Outros Tempos, Outro Fado", com letra e criação de Natália dos Anjos; "Fado Ana" (quadras soltas), gravado por Natalina Bizarro; "Sol de Agosto" (letra de Jorge Rosa) gravado por Maria da Fé; "A Camélia dos Jornais", "Este Mundo Não Presta", "Sua Alteza a Canção", "Falar Falar Só Falar", “Será Que Não Vale a Pena?", com letras de Fernando Farinha e gravados por este; "Hoje Apetece-me Farra", "Não Mintas" e "Maria de Alfama" (letras de Jorge Rosa), gravados por António Mourão; ou "Tu És Mãe" (letra de João Alberto), interpretado por Francisco Martinho.

São ainda de Domingos Camarinha as músicas: "Fado Edite", "Fado Jorge", "Fado Lírio", "Fado Meu Irmão", "Fado Morgadinho", "Fado Neta", "Fado Plebeu", "Fado Record", "Fado Turquesa", "Noites do Meu Bairro" (marcha) e "Marcha do Camarinha"; e as guitarradas: "Corridinho Farense" ou "Flor de Amendoeira", "Cantares Portugueses", "Guitarra ao Luar", "Guitarra Triste", "Motivos sobre o Fado", "Murmúrios do Mondego", "Variações em Lá Menor", "Variações em Ré Menor", "Variações em Si", "Variações em Sol" e "Variações sobre o Fado Corrido".

Afastado da vida artística desde 1982, por razões de saúde, Domingos Camarinha faleceu em Lisboa em 17 de Maio de 1993.

A 8 de Setembro de 1985 a Câmara Municipal de Arganil organizou uma noite de fado de Lisboa, em homenagem a Adelino dos Santos e Domingos Camarinha, com a participação de nomes consagrados como Maria da Fé e Fernando Maurício.

Em 2001 a EMI reeditou em CD uma gravação de 1960, sob o título “Guitarras Portuguesas”. Neste trabalho podem escutar-se 12 variações, das quais 3 são de autoria de Domingos Camarinha e 7 são arranjos seus. Um documento valioso onde podemos comprovar toda a mestria e originalidade de criação e interpretação de Domingos Camarinha.

A sua guitarra, de construção de Álvaro M. Silveira em 1961, encontra-se na exposição permanente do Museu do Fado.

 

Fonte:

“Diário de Notícias”, 20 de Julho de 1944

“Correio Português”, 2ª quinzena de Outubro, 1968

Sucena, Eduardo (1992), “Lisboa, O Fado e os Fadistas”, Lisboa, Vega;

Caldeira Cabral, Pedro (1999), “A Guitarra Portuguesa”, Col. “Um Século de Fado”, Lisboa, Ediclube;

Dinis, António (2006), “Domingos Augusto Camarinha”, in http://www1.uni-hamburg.de/clpic/tematicos/musica/aci/camarinha_domingos.html

Espólio de Domingos Camarinha do Arquivo do Museu do Fado.

Amália Rodrigues, Domingos Camarinha Cannes, 1957

Domingos Camarinha, Amália Rodrigues, Santos Moreira México, 1956

Domingos Camarinha s/d.

Fernando Farinha, Amália Rodrigues e Domingos Camarinha 28 de Maio de 1951

Manuel Fernandes, Domingos Camarinha e Pedro Leal Luso, final da década de 1950

Amália Rodrigues e Domingos Camarinha México, 1964

Amália Rodrigues, Domingos Camarinha e Santos Moreira Londres, 1955

  • Flôr de Amendoeira José Domingos Camarinha (José Domingos Camarinha)